Os conteúdos deste blog são produzidos por Priscila Oliveira, fundadora da Sem Fronteiras. Viajante experiente, ela reúne aqui dicas, reflexões e vivências que traduzem sua trajetória no turismo.

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O Caminho para o Sonho: De Cusco ao Primeiro Olhar sobre Machu Picchu

Sempre me disseram que a viagem é tão importante quanto o destino, mas confesso que, no caso de Machu Picchu, a ansiedade pelo destino quase me consumiu. A jornada começou cedo na estação de Poroy, perto de Cusco. O frio da manhã andina cortava a pele, mas o trem Vistadome prometia uma experiência visual que aqueceria a alma. E prometeu mesmo. Conforme os trilhos nos levavam adiante, vi a paisagem árida das montanhas se transformar gradualmente em uma selva verde, úmida e vibrante. O rio Urubamba corria furioso ao nosso lado, como um guardião barulhento nos guiando até a cidade sagrada.

Chegar a Águas Calientes (o povoado base para a subida) foi um choque de realidade. É uma cidadezinha caótica, turística até o último tijolo, cortada pelos trilhos do trem e cheia de restaurantes e lojinhas de souvenirs. Mas há um charme ali, uma eletricidade no ar. Todos que estão ali compartilham o mesmo objetivo, a mesma expectativa para o dia seguinte. Fui dormir cedo, mas a insônia da antecipação me manteve acordada. A ideia de que eu estava a poucos quilômetros de um dos lugares mais misteriosos do mundo fazia meu coração bater mais rápido.

O despertador tocou às 4h da manhã. A fila para o ônibus que sobe a montanha já era enorme, uma serpente de turistas sonolentos e encapuzados na neblina da madrugada. A subida de ônibus é vertiginosa; curvas fechadas em uma estrada de terra que parece estreita demais para dois veículos. A cada curva, o estômago embrulhava, não sei se pelo enjoo ou pela emoção. A neblina era espessa, escondendo o que estava por vir, criando um suspense natural que nem Hollywood conseguiria roteirizar melhor.

Quando finalmente passamos pelas catracas e começamos a caminhada final até o mirante da Casa do Guardião, o tempo parecia ter parado. A neblina ainda brincava de esconde-esconde com as ruínas. Sentei-me em uma pedra, respirei fundo (o ar rarefeito exige calma) e esperei. De repente, como se o sol tivesse dado uma ordem, as nuvens se dissiparam. E lá estava ela.

Não há foto no Instagram ou documentário na TV que prepare você para a escala real de Machu Picchu. A perfeição dos terraços agrícolas, a simetria das construções de pedra e o pico imponente da montanha Huayna Picchu ao fundo formam um quadro que faz os olhos marejarem. Naquele momento, esqueci o cansaço, o frio e o preço da passagem. Eu estava diante da história, pequena perante a grandeza do Império Inca, e foi a sensação mais humilde e grandiosa que já senti.